sábado, 29 de janeiro de 2011

Por que somos solidários?

Vejam abaixo três casos de solidariedade relacionados às tragédias das enchentes no estado do Rio de Janeiro, extraídos da edição de 22 de janeiro da revista Época:

1- Era dia de sol no feriado de São Sebastião, padroeiro do Rio de Janeiro. Mal a quinta-feira amanheceu, a estudante de enfermagem Caroline Martins, de 21 anos, acordou e saiu de casa. Seu destino não era a praia. Uma hora e meia depois, ela estava entre os mais de 100 voluntários que trabalhavam no Ginásio Poliesportivo Pedro Jahara, no centro de Teresópolis, uma das cidades com mais mortos e desabrigados pela tragédia das chuvas no Estado. Munida de cuidado e paciência, ela fazia a triagem de toneladas de roupas que chegaram ali por meio de doações. As arquibancadas, que têm capacidade para 5 mil pessoas, estavam lotadas. Seu primeiro trabalho era separar o que servia. Muita coisa chegava rasgada ou mofada. Depois, dividia entre masculino, feminino, infantil e ainda calçados e acessórios. O material era enviado a outro grupo, que, na quadra central, o separava por tamanho e tornava tudo disponível para as famílias que procuravam o local. “Nessas horas, ajudar dá mais prazer do que se divertir”, diz Caroline.

2- O empresário Nélio Zaúde, de 48 anos, poderia seguir sua rotina de fabricante de máquinas e termoplásticos na cidade de São Roque, em São Paulo. Mas não. Ele deixou a família na quinta-feira para levar pessoalmente, de caminhão, numa viagem de 12 horas, 9 toneladas de donativos até Nova Friburgo. Foram coisas que eles e seus funcionários conseguiram em um dia de coleta. No ano passado, durante as enchentes de Santa Catarina, fez a mesma coisa: foi até lá e se enfiou na lama para ajudar. “Não dá para dormir no quentinho, comer do melhor, enquanto muitos, que perderam amigos e parentes, estão passando fome, em meio à sujeira”, diz Zaúde. “Não dá para ficar sentado sem fazer nada”.

3- A professora Quitéria da Silva Lima, de 49 anos, moradora da cidade de Paulo Jacinto, a 100 quilômetros de Maceió, sentiu o mesmo impulso. Ela foi à rádio local sensibilizar as pessoas de seu município para colaborar com doações. Resultado: a garagem de sua casa acabou tomada por roupas, colchões e sapatos. Em junho, a cidade de Paulo Jacinto ficou submersa após as chuvas que mataram 27 pessoas e afetaram cerca de 200 mil no Estado. Quitéria não estava entre as vítimas, mas viu pessoas perder tudo. “Recebemos ajuda de todo o Brasil. Não nos faltou nada.” Foi nisso que pensou quando viu as notícias das mortes e de pessoas desabrigadas na região serrana do Rio de Janeiro. “Agora que estamos bem, podemos ajudar”, afirma. “Não conhecemos as pessoas, elas são de regiões mais ricas do que a nossa, mas são filhos de Deus e nossos irmãos. Temos obrigação de ajudar”.

Muito interessantes as iniciativas destas pessoas, não é mesmo? Mas o que as leva a fazer tamanho esforço pelo próximo em detrimento do próprio bem-estar? O pesquisador isralense Oren Harman estuda como a biologia, a psicologia e a sociologia podem explicar o impulso de ajudar. Em entrevista à Época, ele analisou o tema do ponto de vista científico. Segundo ele, quando alguém encontra um mendigo na rua, por exemplo, pode decidir dar dinheiro a ele apenas para diminuir o próprio sentimento de estresse. Essa forma de doação não é, portanto, altruísmo puro, mas, na verdade, uma forma de egoísmo. Paradoxal, não?! O mesmo vale para um filantropo que faz caridade para ganhar reputação como caridoso. Quando fazemos boas ações para os outros, há processos biológicos em nós que, inconscientemente, melhoram nosso bem-estar. Por isso, há até pessoas que dizem que não existe altruísmo puro.

Por outro lado, há indivíduos que chegam a colocar a própria vida em risco para salvar a do próximo, o que contraria o princípio de auto-preservação estabelecido pela teoria evolucionista proposta por Charles Darwin. Segundo Harman, não há dúvidas de que a educação e a cultura têm papel importantíssimo neste tipo de comportamento. Muitos dizem que esses são os fatores mais importantes para as atitudes altruístas. Aprender com o nosso passado evolutivo é importante, mas tem seus limites, e a cultura é realmente um fator especial. Claramente, se você é ensinado a respeitar os outros como a si mesmo, e a valorizar esse preceito, seu posicionamento sobre a vida e os outros será diferente do que o de alguém que aprendeu a buscar o primeiro lugar num mundo ultra competitivo. Predisposições biológicas existem, mas são determinantes apenas em casos patológicos. A cultura e a educação contam mais.

Enfim, a ciência dá seus passos para entender a solidariedade. 

No Espiritismo, este assunto está relacionado à Lei de Amor. Talvez esta denominação assuste um pouco aqueles que gostam de analisar as coisas racionalmente. No entanto, é justamente assim que ela deve ser analisada. Tal como a lei newtoniana da gravitação, já plenamente conhecida, a lei de amor é uma lei natural como outra qualquer. Apenas não a compreendemos muito bem ainda, cientificamente falando.

Sem entrar em detalhes, O Livro dos Espíritos diz que o amor é a lei de atração para os seres vivos e organizados, assim como a atração é a lei de amor para a matéria inorgânica. Cuidado, aqui não se deve entender o amor como aquele negócio meloso e apaixonado com o qual estamos acostumados, mas sim como um sentimento fraternal. Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, explica-se que a lei de amor substitui a personalidade pela fusão dos seres, o que colabora com a extinção das misérias sociais. Amar é fazer aos outros o que se deseja para si mesmo. Este é o significado mais profundo da expressão "amai-vos uns aos outros" ensinada por Jesus.

Assim, se todos somos parte do mesmo todo, fazer bem ao próximo é fazer bem a si próprio. Existe, realmente, um curioso e paradoxal aspecto entre caridade e "egoísmo" na lei de amor. De fato, quando se faz uma bondade sincera para alguém, sente-se uma sensação muito boa em contrapartida. Há algum efeito do tipo ação e reação na lei de amor, o qual se origina em território exterior à matéria, benéfico física e psicologicamente a todos os envolvidos. Talvez algum dia alguém consiga equacionar esta lei e seus efeitos, assim como Newton fez com a gravidade. Será?! 

Mas de que isso importaria... Equacionada ou não, a lei de amor é uma das mais belas leis do universo. Se ainda não foi resolvida cientificamente, filósofos e poetas já o fizeram. Todos podemos resolvê-la intimamente em nossos corações. O fato é que a solidariedade somente será melhor compreendida quando estudada de maneira mais ampla, levando-se em conta, além da psicologia, da sociologia e da biologia, os aspectos espirituais da vida. O amor fraterno é componente espiritual dos seres. De uma perspectiva exclusivamente materialista da evolução humana, a solidariedade não faz mesmo o menor sentido.

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2 comentários:

  1. Olá, Adriano! Eu acho que até a dialética ajuda-nos a compreender essas afirmativas. Se levarmos em conta a sujetividade humana ao considerarmos que tudo se relaciona, não podemos dissociar o ser humano do resto das coisas. A lei da ação e reação é ainda mais forte quando a doação de cada um se junta num coletivo. Eu, apesar de todas as idiossincrasias e percalços nas relaçoes humanas ainda acredito nisso fortemente. Ótimo o artigo. Abraços. Paz e bem.

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  2. Oi Cacá,

    Obrigado pelo comentário. Sem dúvida, não há como dissociar o ser humano do resto das coisas. Mesmo porque, como afirmam os orientais com sabedoria, somos todos um.

    Abração!

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