sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Lavar a Louça

Pessoal, abaixo um texto que enviei para alguns sites e jornais espíritas para ver se alguém publicava, mas ninguém publicou nem deu a menor bola. Tudo bem, não tem problema, agora está publicado aqui. Abraços e boa leitura :--)

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Não é de hoje que tenho prestado mais atenção às minhas reações ao cotidiano. Homens em geral, e comigo não havia de ser diferente, passam boa parte da vida buscando a glória das grandes realizações. Ser o melhor nos estudos, na empresa, atingir altos cargos, receber grandes montantes, ser reconhecido, invejado. – Que orgulho de mim mesmo! Assim dizem e se esbaldam na admiração que recebem de seus iguais, tal qual se lambuzam crianças em sorvete. Fazem-no até, de certa forma, inconscientemente. Quase que despercebidos das intermináveis horas de ausência no lar, das atenções apenas contadas vezes dispensadas aos mais queridos, dos momentos de intolerância, das bravezas e indelicadezas. É de repente que ganha principal importância uma salvadora inquietação. – Será mesmo este o caminho?

Lá em casa estávamos há tempos precisando dividir as tarefas domésticas. Não era correto que minha querida esposa arcasse sozinha com tantas atividades. Marido, dois filhos pequenos, cachorro, casa, empresa, minha nossa! Fizemos então uma divisão mais justa. A mim foi atribuída a tarefa de lavar toda a louça após as refeições. Até que assumi a responsabilidade com bom grado. De iniciativa própria, coloquei-me à disposição. – Deixa que eu lavo! Imaginei que poderia haver algum aborrecimento, mas que seria suportável. Iniciei então no mesmo dia.

Desde lá, inesperado sentimento vem crescendo. Não podia imaginar o bem que a lavação me seria. Cadê o aborrecimento? O trabalho é solitário, é verdade. E raro se espera que as panelas, pratos e talheres fiquem tão sujos. Não que eu nunca tivesse me colocado a lavar louças, tal fato já me era sabido. A diferença é que passei a me deliciar com as preciosidades que sempre estiveram por ali escondidas. Que maravilhas! A humildade ao tomar os serviços diariamente após as refeições. A paciência, antes pouco cultivada, surgindo para me ajudar a retirar as sujeiras dos cantinhos. O respeito à água, um líquido tão sagrado, escoando por entre os dedos. O carinho ao conferir a qualidade da limpeza. A alegria em servir à minha família. É tanta que, às vezes, até começo a cantarolar durante os afazeres.

Confesso, entretanto, que me surpreendeu minha própria transformação. Passei tanto tempo admirando famosos atletas, executivos e líderes da história. Lutei para cravar meu nome junto ao deles. – Será que não vão colocar minha foto nem no jornalzinho da empresa? Sonhei intimamente, por anos a fio, em conceder entrevistas à imprensa. Ainda vejo as chances, bastaria agarrá-las. Creio que percebi em tempo, porém, a fútil ilusão. As maiores realizações estiveram sempre tão pertinho. Ajudar a família, os amigos, os mais próximos. E não foi por falta de aviso que insisti durante anos na ignorância, pois minha querida esposa constantemente me alertava com sábios dizeres. Hoje verdadeiramente compreendo, de coração, que ela estava certa. Não tenho como agradecer a Deus a inspiração que me levou a absorver lição tão doce. Só peço que me ilumine e permita avançar por este que, sem dúvida, é o único caminho possível. Lavar a louça.

2 comentários:

  1. porque não ser um alto executivo, que mantenha a humildade e que lava louças ?
    as condições não são excludentes.
    e, no meu entender, a contribuição para melhoria da humanidade seria maior.
    abraço

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  2. Ótimo comentário, Chiquito! Você pegou a essência da coisa, pois realmente não são condições excludentes. Abraços!

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